“O grande
drama da vida talvez esteja em sua própria construção,
naquilo que devemos fazer com ela, como o grito desesperado de São
Paulo ao pronunciar ‘o homem tem que ser edificante’, cruel
exigência ou maravilhoso favor. Nessa edificação
ganha a imaginação a princípio. Mas só a
princípio, já que ao efetivar-se o sonho, perdemos parte
dessa grande mãe criativa, que tantas vezes se oculta na realidade
que o mundo insiste em chamar de verdade.
Construímo-nos exatamente como o novelista constrói seus
personagens. Somos novelistas de nós mesmos e se não o
fôssemos, jamais poderíamos entender qualquer obra literária
ou poética. Quem não percebe o autor de sua vida, não
aprecia a arte que lhe inspira e nem admira a natureza que o espelha.
O lamentável é que, na maioria
das vezes, cumpre-nos eleger um só e único caminho dentre
os muitos que poderão chegar e atender aos apelos da vocação.
São programas de vida e, não necessariamente, o projeto
vital. Passam na fantasia mas nem sempre refletem o
desejo. Ao escolher alguns, excluímos os demais, onde poderá
haver justamente o ponto central. Pode acontecer,
e geralmente acontece, que a multiplicidade dos dotes desoriente e perturbe
o projeto vital, o chamamento sagrado do fogo interior.
Como Goethe que viveu inseguro do seu Eu, do seu desejo, devido à
natural exuberância de suas aptidões.
Quantos mais eu vi assim. Tamanha aptidão em confronto com uma
vontade duvidosa! E uma vida de tal forma ambígua, flutuando
ao sabor do acaso, sem maior determinação interna, torna-se
vida em disponibilidade. Goethe queria permanecer eternamente em disponibilidade.
Difícil questão: até que linha divisória
a disponibilidade é o livre ser, a passagem para o novo, e até
que ponto torna-se desperdício:
Tudo indica que Fernando Pessoa, esse grande entre os maiores, tenha
sido um caso análogo. A multiplicação de suas vidas
possíveis desorientou e perturbou o rumo de seus passos, para
o que poderia vir a ser sua vida real, exclusiva, vocacional. Mergulhou
por suas próprias palavras e, “progressiva e irreversível
disponibilidade”. No vazio da disponibilidade, que fez de toda
a sua existência a busca interminável e sempre frustrada
da “identidade perdida”. Ou será essa identidade
perdida que tira o homem do comum, desse diário ofuscante que
preenche falsamente o impreenchível. É a dúvida
dos libertos de pensamento, dos que possuem a saudável angústia
da tragédia e a visão do paraíso dessa monumental
condição humana.
Aqui, neste momento, Julian, penso se estou disponível, se sempre
estive e tremo de pavor ao questionar se a disponibilidade já
não cabe num homem tão envolvido! Enfim, se me fiz ou
se me perdi. Neste inverno madrilenho, ao final da vida, é o
meu drama e meu encanto. Ter Goethe e Pessoa como fantasmas e santos
do meu sonho e do meu dia”.
Temos todos que vivemos,
Uma vida que é vivida,
E outra vida que é pensada,
E a única que realmente temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada...
Fernando Pessoa
É admirável e contentador reconhecer que há quem
pense o mundo e o faz de forma tão especial e profunda.
Boa Reflexão
Hélio de Moraes e Marques
GRANDE MESTRE