É possível a paz na Terra?

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Por SERGE TOUSSAINT, FRC – Grande Mestre da Jurisdição de Língua Francesa

Quando consideramos a história da humanidade, desde suas origens até os nossos dias, constatamos que ela está cheia de conflitos e de guerras. Via de regra esses conflitos e essas guerras tiveram e ainda têm origem em interesses econômicos, políticos ou religiosos: apropriar-se dos bens de uma nação; impor uma outra sua maneira de governar; converter ao seu Deus uma outra ainda… Nota-se também que, se as guerras são feitas geralmente pelos militares ou por pessoas do povo, são mais frequentemente decididas e estimuladas por aqueles que justamente dirigem o mundo econômico, político ou religioso, ficando entendido que muito raramente eles são vistos no meio dos combates e menos ainda no front. Mas quer se trate daqueles que decidem as guerras ou daqueles que as fazem, todos são seres humanos. São eles então que são responsáveis pelos horrores que elas acarretam e não a fatalidade e menos ainda o próprio Deus. No entanto, muitas delas foram realizadas e ainda o são em Seu nome, o que mostra a que ponto o mero fato de se crer  Nele absolutamente não é um critério de inteligência e de sabedoria. Todos os fanatismos e integrismos religiosos são infelizmente provas disto. Isto posto, a História mostra também que numerosos conflitos foram e ainda são causados por ideologias políticas.

Como são os seres humanos que decidem as guerras e as fazem, pode-se perguntar se o próprio ser humano é um ser agressivo, conflituoso e guerreiro. Infelizmente, acho que é este realmente o caso, pelo menos enquanto ele age sob a impulsão dos aspectos mais negativos do seu ego, os quais correspondem às necessidades de possuir, dominar, convencer, subjugar etc. É verdade que existem fatores “exteriores” que favorecem os conflitos, sendo a pobreza provavelmente o mais importante. Dito isto, muitas nações pobres não são, no entanto, belicosas e, ao contrário, aspiram a viver em paz. Inversamente, a História está cheia de exemplos de nações ricas e poderosas que não cessaram de querer estender sua dominação e sua hegemonia. Assim, pois, a causa profunda das guerras que sempre vêm assolando o mundo está no próprio ser humano, mais precisamente em seus defeitos e em suas fraquezas, as quais decorrem da sua ignorância do momento e da sua falta de evolução espiritual. Por extensão, elas resultam do fato de que ele tem o livre-arbítrio e o poder de empregá-lo de maneira negativa e destrutiva. É justamente isto que o distingue dos animais, os quais geralmente só matam por razões de sobrevivência e em nenhum caso sob o efeito do ódio. De fato, a espécie humana é a única que se autodestrói com tanta fúria.

Admitindo-se que a guerra resulta fundamentalmente da imperfeição dos seres humanos, deduz-se que a paz só pode ser o fruto do seu aperfeiçoamento. Quer dizer que ela corresponde a uma condição ideal que eles devem criar por si mesmos sob o efeito de sua própria vontade e de seus próprios esforços. Ela só será então possível se eles trabalharem em si mesmos para transcender os defeitos que se encontram na origem da maior parte dos conflitos, como o orgulho, a intolerância, o ciúme, o rancor, a agressividade e, naturalmente, o ódio. Vista sob este ângulo, a paz só será possível quando todos os seres humanos, tanto entre os governados quanto entre os governantes, tiverem desenvolvido uma grande ética pessoal e manifestarem no seu comportamento virtudes como a humildade, a tolerância, o desprendimento, o perdão, a benevolência e, é claro, o amor. Isto implica que eles estejam, senão perfeitos, ao menos próximos da perfeição tal como ela pode ser concebida no plano humano. Esta perspectiva pode naturalmente parecer utópica, mas ela corresponde ao estado ideal para o qual a humanidade deve tender se queremos que a paz um dia reine na Terra.