Eu Sou no Ser Cósmico

    O caminho para a redenção da humanidade, rumo ao cumprimento do seu natural destino maior, há de passar pela transmutação de suas muitas religiões de caráter antropomórfico numa só Religião Universal, sem esse caráter. E o primeiro passo nesse caminho há de ser uma profunda mudança na ideia sobre o ser humano, na ideia sobre Deus e na ideia sobre a relação do ser humano com Deus.

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    -Por Zaneli Ramos, FRC

    EU… que é?

    O corpo? Não. Evidentemente, ele é meu, mas não é eu. Por isso digo, “meu corpo”. Então, tenho de procurar a natureza desse EU em alguma “coisa” imaterial que consiga sentir ou perceber em mim mes­mo. Se não sou o corpo, que sou no corpo que uso?

    O pensamento? Também não. Pensar é algo que EU faço, algo que se produz em mim. Eviden­temente, o pensa­mento é meu, mas não é eu. Por isso digo, “meu pensa­mento”. Então, tenho de procurar a natureza desse EU em alguma outra “coisa”… imaterial? Se não sou o corpo, nem o pensamento, que sou no corpo que uso e no pensamento que produzo?

    Emoção. É isso que sou? Também não. EU me emociono. Emoção é algo que ocorre em mim, ou comigo. Por isso digo “minha emoção”. Então, tenho de pro­curar a natureza desse EU em algu­ma outra “coisa”… imaterial? Se não sou o corpo, nem o pensamento, nem emoção, que sou no corpo que uso, no pensa­mento que produzo e na emoção que sinto?

    Percepção. É isso que sou? Ainda não. Percepção é algo que resulta da minha interação com aquilo que percebo. Por isso digo, “EU percebo”. Então, tenho de procurar a natureza desse EU em alguma outra “coisa”… imaterial? Se não sou o corpo, nem o pensamento, nem emoção, nem percepção, que sou no corpo que uso, no pensamento que produzo, na emoção que sinto e na percepção que tenho?

    Sentimento. Um even­to emocional? Então não adianta. Já pensei isso no caso da emoção. Uma sensação… sem caráter emocional, como uma espécie de “fato técnico”? Também não adianta. Já pensei isso no caso da percepção. Por isso digo, “EU sinto”. Então, tenho de procurar a natureza desse EU em alguma outra “coisa”… imaterial? Se não sou o corpo, nem o pensamento, nem emoção, nem percep­ção, nem sentimento, nem sensa­ção, que sou no corpo que uso, no pensa­­mento que produzo, na emoção que sinto e na percepção e na sensação que tenho?

    Outra “coisa”? Que mais posso obser­var e constatar em mim, nesse EU que digo que sou?

    Imaterial? Como posso observar e constatar isso?

    É… curioso… intrigante… perturbador?

    Se me perguntam, “quem é você?”, posso responder muita coisa. Se me perguntam “que é você?”… engasgo; ou respondo: “EU, ora!”

    Mas há uma saída. Respondo: “um ser humano”. Melhorou. O problema é que então me perguntam: “que é um ser humano?”. Respondo: “um ser que usa um organismo físico ou sistema bioló­gico – um corpo – para pensar, ter emoções, percepções e sensações. Percebo então que andei em círculo. O problema persiste, porque EU é um caso particular de “um ser”. O problema que existia para definir a natureza do indivíduo – EU – existe para definir a natureza da espécie. Pensar e ter emoções, percepções e sensações – e, mais obviamente ainda, agir – são funções do ser humano e não aquilo que ele é.

    Como fico então?

    Bem, como não tenho mais onde nem como procurar a natureza do EU, ou do ser humano, sou obrigado a concluir que essa natureza é transcendente. Que significa isto? Que não posso pensá-la nem conhecê-la por emoção, percepção, ou sensação. Sou. Mas não posso conhecer o que sou, não posso saber o que sou; só posso ser o que sou.

    No entanto, isso que sou não pode ser nada; tem de ser algo. Se fosse nada, não existiria – e EU existo. Não sei o que sou, mas sei que sou… porque penso, tenho emoções, percepções e sensações, e ajo. Concluo então que EU é algo que usa um sistema biológico para pensar, etc.

    Algo… o quê? Um “buraco”. Visualizo a figura:

    Esse EU, então, é algo transcendente, um “não-nada” que não posso conhe­cer, que só posso ser!

    Eu sou no Ser Cósmico…

    Sou… que é ser? Existir? Só? Sinto que há mais. A caneta existe; só. Eu também existo; mas há mais: sou. Existir é a idéia nuclear de ser, porém, há mais. Ser é existir e ter percepção disto – cons­ciência! Não sei o que sou, mas sei que sou – um “não-nada” transcendente.

    Sou… Ser, aqui, é verbo. E verbo, que é? Ação, manifestação, fenômeno. Sou fenômeno de ser! E nisso tive co­meço e vou ter fim! Mas, naquilo em que sou um “não-nada” transcendente…

    Eu sou no Ser Cósmico…

    Que é Ser Cósmico? Ser, aqui, é substantivo. Um ente, algo, uma “coi­sa” e não manifestação, ação, ou fenômeno. E esse ente ou SER substantivo é necessariamente infinito e eterno. Único e a essência de tudo. Cósmico indica isto. Com efeito, se ele tivesse começo e fim, que existiria antes e depois dele? Nada? Absurdo! Nada, não pode existir. Se existe, não é nada; é algo. Se é nada, não existe.

    Ser Cósmico, portanto, é O Ser – um só, único e uno – que é essência, fonte e sede de tudo. O único ser subs­tantivo; todos os outros seres são verbos – fenômenos de ser. Todo e qualquer outro ente, toda e qualquer outra “coisa”, só pode ser fenômeno de ser – verbo – desse Ser único, infinito e eterno – cósmico.

    Então, nele – e somente nele – tudo é UM, infinita e eternamente! Em si mesmo, todo e qualquer “outro ser” é fenômeno, verbo, teve começo e vai ter fim, é finito e temporal. Por isso sinto e penso e creio:

    Eu sou no Ser Cósmico… e do Ser Cósmico… manifestação.

    Sou fenômeno de ser no Ser Cósmico, no SER, único, infinito e eterno. Nele sou substantivo; em mim mesmo, sou verbo. Nele sou infinito; em mim mesmo, sou finito – acabo, no Ser que não acaba. Nele sou eterno; em mim mesmo sou temporal – passo, no Ser que não passa. Visualizo a figura:

    O SER, sem começo nem fim, infinito e eterno. Glorioso!

    Eu? Em mim mesmo – no meu ego – finito e temporal. Inglório. Em mim mesmo, não posso ter glória; só n’Ele. “Minha” glória não é minha; é e só pode ser d’Ele. Porque eu sou verbo… n’Ele, que é o único substantivo. Em mim pode se manifestar a glória d’Ele. A minha? Ilusão. Porque sou função necessária de alguma característica ou propriedade, ou de características ou propriedades, d’Ele. Minha vida, no que é “minha”, não pode ser essa função! O cumprimento da “minha” função de ser n’Ele há de ser a glória d’Ele… n’Ele mesmo! Vão e funesto, qualquer esforço de alcançar qual­quer glória em mim mesmo e por mim mesmo. Prolífico e imortalizador, todo esforço de propiciar a glória do SER n’Ele mesmo e por Ele mesmo… em mim!

    Reitero enfim, na tentativa de ante­cipação do sentimento sublime da glória de ser no Ser:

    EU SOU NO SER CÓSMICO… DO SER CÓSMICO… PELO SER CÓSMICO… PARA O SER CÓSMICO!

    EU SOU EM DEUS… DE DEUS… POR DEUS… PARA DEUS!!!

    Então… na Religião Universal, única e una, o nobre caminhar do ser no SER, em respeito para com tudo e todos que n’Ele, d’Ele, por Ele e para Ele sejam manifestos, até… até o estado de pureza e vivência do eu em Deus que permita o supremo passo… gloriosamente lúcido… imortalmente vital… para o amor de Deus, em Deus, por Deus e eterna e infinitamente para Deus!