Mutatis Mutandis

    Mensagem especial enviada das montanhas do Himalaia Nicholas Roerich, F. R. C.

    319

    Mensagem especial enviada das montanhas do Himalaia Nicholas Roerich, F. R. C.

    A história registra a antiga bênção das armas antes de uma batalha mortal em nome do mesmo e único Deus. Mesmo em tempos mais recentes, podemos testemunhar vários países invocando o mesmo Deus único para ajudá-los a aniquilar seus inimigos. Já houve uma época em que os soberanos de impérios levavam sempre consigo seus próprios cozinheiros para evitar envenenamento e tinham uma pessoa especificamente para provar a comida. Mas, atualmente, as personalidades de destaque não têm que lançar mão dos mesmos recursos?

    Podemos apresentar inúmeras comparações desse tipo. Todas elas vão provocar a mesma exclamação de espanto, mas trata-se exatamente da mesma coisa, quer tenha ocorrido na venerável Antiguidade, quer aconteça atualmente com um aspecto e costumes um pouco diferentes. Isso significa que não avançamos muito. Talvez, na Antiguidade, isso tudo tenha até acontecido de uma forma muito mais franca e pitoresca e, por isso, redimia até certo ponto a hipocrisia e o banditismo subjacentes. Além do mais, nos tempos antigos, havia menos escritos hipócritas, e as leis de Namu, Hamurabi e dos primeiros legisladores eram mais sucintas, embora em muitos casos essa concisão as tornasse muito mais marcantes.

    Desde aqueles tempos antigos muitos novos impérios surgiram e caíram no esquecimento. Houve tantas mudanças de governantes que os registros da história dificilmente conseguiriam abarcar todas elas, e é apenas pelas evidências deixadas por artistas que, através de uma moeda, de uma medalha ou de uma estela que nos fornecem o registro de um nome novo, que temos as pistas de um ou mais conquistadores que desapareceram. Mas essas mudanças não são surpreendentes diante das mudanças colossais que estão acontecendo atualmente em toda a superfície do planeta quando, além da semilegendária mas já reconhecida Atlântida, temos todo um grupo de ilhas históricas que desapareceram em épocas relativamente recentes.

    Algumas ilhas desaparecem e outras praias e montanhas surgem. O solo, que nos parece tão imóvel e firme, na realidade está se movendo da mesma forma que as ondas do mar, apenas um pouco mais devagar. Seria de se esperar que a humanidade tivesse se acostumado, durante sua longa existência, ao movimento. E é exatamente este princípio de relatividade e de movimento que deveria acabar atraindo a atenção da humanidade para sua própria evolução. Foi o iluminado Marco Aurélio que escreveu o sábio contrato: ‘Estude o movimento das luminárias como se você participasse desse movimento’. Mas este conselho sábio acabou não sendo praticado. Se a humanidade pudesse se elevar em pensamento para os mundos superiores, que evolução rápida e brilhante seria conseguida!

    Sei que se fala das mais novas descobertas referindo-se a elas como sendo a coroa da evolução. Fala-se de teorias brilhantes e isoladas que são lidas como passatempo. Finalmente, fala-se dos hábitos da assim chamada ‘vida civilizada’, que atualmente disponibiliza às grandes massas o que há algum tempo tinha circulação restrita aos governantes e sumos-sacerdotes. É verdade que nossas cidades, ao mesmo tempo em que envenenam o organismo humano, abrem algumas possibilidades de utilização das novas descobertas. Mas não estamos nos referindo aos sistemas de esgoto da civilização. Não estamos nos referindo às verduras enlatadas e, muito menos, da música enlatada. Falamos, sim, do que nos impulsiona a tomar as melhores decisões pela humanidade.

    Bem recentemente passamos por uma terrível guerra sem sentido. Estamos cientes de que, nesta década, as consequências da guerra não só não se apagaram, mas, ao contrário, se cristalizaram e incharam, gerando uma verdadeira tragédia. Passaram a constituir uma tragédia quase que irreparável que só pode ser alterada por medidas indiscutíveis em sua essência. Quantas e quantas vezes ouvimos na escola ou na faculdade o velho conselho: “Mutatis mutandis – mude aquilo que deve ser mudado”. Desde então presenciamos inúmeras barbaridades em tempos de paz e de guerra invadindo nossas vidas. A humanidade pode mais uma vez ficar certa de que, no mesmo momento em que aqueles mais sinceros caíam nos campos de batalha como vítimas das calamidades do mundo, os conchavos infames engordavam traiçoeiramente com o sangue dos outros. Que inventividade diabólica era manifestada pelos ‘das trevas’ para descobrir mil maneiras de obter ganhos pessoais, com conhecimento pleno de que esses ganhos ilícitos teriam uma ação implícita sobre as gerações seguintes. E, se fosse realizado agora um plebiscito para ver quem é a favor e quem é contra a guerra, é impossível prever quais seriam os resultados, se a consulta fosse por voto secreto. É claro que a grande parte das mulheres votaria contra a guerra e os círculos cultos, sem dúvida, se revoltariam contra essa tragédia, assim como muitos da classe trabalhadora. Que variedade de ramificações tem as raízes da mesquinharia e que razões únicas e tristes serão apresentadas para que se retorne novamente ao reino da irresponsabilidade em que tudo é permitido e tudo pode ser explicado pela participação hipócrita num trabalho em prol da “coletividade”? Dá medo só de lembrar das negociações criminosas por matérias podres ou até mesmo inexistentes. É horrível para a dignidade humana olhar para trás e ver documentos fraudulentos, acusações criminosas e ordens que colocaram em perigo a vida de muitos milhares de pessoas.

    ‘Mas isso já passou’, poderão dizer. E, desde então, já tivemos um grande número de fatos, conferências e acordos econômicos. Planos desse tipo já foram realizados, mas como resultado temos uma crescente depressão. Navios velhos foram desarmados e mesmo destruídos para serem substituídos por construções ainda mais perniciosas. Até nas lojas tomamos o cuidado para que o ar seja ozonizado, mas, ao mesmo tempo, os laboratórios científicos têm utilizado sua infraestrutura para inventar novos gases venenosos. Não é verdade que o cientista da área da química que inventou o gás mais letal sonha em receber o prêmio de química do mesmo comitê que concede o prêmio pela paz? Mesmo nos dias de hoje alguns sonham com uma determinada conquista da ciência como sonhariam – através de um despacho fratricida – dizimar totalmente certas regiões habitadas! E é possível que algum outro cientista iluminado sonhe com o envenenamento ‘bem sucedido’ de todas as fontes de água para que tudo que esteja vivo pereça!

    Mas as coisas poderiam ser mais simples se os cientistas fizessem um juramento semelhante ao que fazem os médicos no sentido de não permitirem que saiam de seus laboratórios quaisquer descobertas prejudiciais, principalmente porque muitos desses gases e raios terríveis usados como arma podem – com a adição de um ingrediente – se tornar de fato benéficos à humanidade.

    Mutatis Mutandis! Nas épocas das maiores calamidades é preciso mudar muito rapidamente o que precisa ser mudado. E, em primeiro lugar, deve-se transformar o que é mais prejudicial ou de menor utilidade em algo que seja benéfico. É aí que está a verdadeira arte da transmutação dos rosacruzes. Não façam o papel de bobos, como se não soubessem o que é benéfico. No fundo de seu coração, todo homem sabe perfeitamente bem o que é benéfico para todos, o que é benéfico para os mais próximos e, ao mesmo tempo, o que é benéfico para o indivíduo! Não há qualquer momento no processo de criação em que seja necessária a autodestruição. O verdadeiro bem coletivo é também o bem do indivíduo, pois o indivíduo faz parte da comunidade.

    Mudando aquilo que é prejudicial para algo benéfico, em outras palavras, substituindo a destruição pela construção, faremos aquilo que é necessário não para a civilização da evolução, mas para a cultura da evolução. Alguém numa crise de loucura já tentou imaginar uma corporação que inseriria um tubo até as profundezas da Terra para ser preenchido com explosivos que arrebentariam o planeta numa explosão sem precedentes. É um plano louco. Mas, na sua inconsequência, ele merece muito mais atenção do que as invenções dos novos gases letais. E a tolerância velada aos narcóticos que deterioram gerações inteiras e que dizimaram nações inteiras com passados gloriosos? Será que esse flagelo da humanidade, que é mais perigoso do que a sífilis, o câncer e a tuberculose, não deve ser exterminado para sempre? Será que cada um de nós não é capaz de listar um grande número de problemas que merecem ser extirpados imediatamente da vida?

    É preciso que nos unamos num esforço inadiável para formar um bloco de oposição contra a escuridão, a ignorância, a distorção e a maldade. É preciso que os que têm boa vontade se unam em todos os países, não para fins de desenvolver medidas policiais e contra-ataques que requerem proibições, mas em nome da Luz, da Vida e do Amor. Sentindo no coração a premência da evolução das culturas, essa luminosa Fraternidade precisa agir no sentido de deixar de lado os formalismos insignificantes e, para a bem-aventurança da humanidade, precisa mudar ativamente o que precisa ser mudado. Mutatis

    Mutandis! – Himalaia, 1933.