Ordem Rosacruz
Uma Antiga Sabedoria para um Mundo Novo

Platão – o caminho do meio

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Se compararmos os três filósofos gregos que forneceram as bases para a construção da sociedade ocidental – Sócrates, Platão e Aristóteles – vemos que temos em Sócrates um comportamento mais revolucionário, em Aristóteles, um comportamento mais reacionário e em Platão uma espécie de síntese intermediária desses dois.

Iniciando por um detalhe nem sempre levado em consideração, a forma dos escritos platônicos é o diálogo, ao passo que Sócrates fazia seus ensinamentos oralmente e de forma fragmentária, enquanto Aristóteles tinha um método estritamente didático. Além disso, ainda em nível bastante superficial, Platão mistura muitas vezes o mito e a poesia com os elementos puramente racionais do seu sistema.

Essas características me chamaram a atenção e me possibilitaram fazer uma ligação entre as ideias deste filósofo e as ideias Martinistas.

Na comparação de ideias, me chamou a atenção o tratamento que Platão dá à alma e à educação. Segundo ele, já que, neste mundo, a alma humana racional se acha, de fato, unida ao corpo e aos sentidos, a vida moral depende da sujeição do corpo ao espírito, para impedir que o primeiro seja obstáculo ao segundo.

Em outras palavras, para se atingir a Sabedoria – Prudência –, é necessário que a alma racional domine, antes de tudo, a alma concupiscível (os desejos, os apetites), através da virtude da Temperança, e domine também a alma irascível (os ímpetos), através da virtude da Fortaleza.

Esta distribuição harmônica de atividades na alma constituiria a Justiça que, segundo Platão, juntamente com a Sabedoria, é uma virtude fundamental. E é daí que se derivam, segundo a metafísica platônica da alma, as famosas quatro virtudes naturais/cardeais: Prudência, Fortaleza, Temperança, Justiça.

Segundo Platão, o estado ideal deveria ser dividido em classes sociais.  E a sua divisão em classes reflete a classificação das virtudes. Três são, pois, estas classes: a dos filósofos (promotores da Sabedoria), a dos guerreiros (promotores da Temperança), a dos produtores (promotores da Fortaleza).

À classe dos filósofos cabe dirigir a República. Eles se concentram no mundo das ideias, conhecem a realidade das coisas, a ordem ideal do mundo e, consequentemente, a ordem da sociedade humana, e estão, portanto, à altura de orientar racionalmente o homem e a sociedade. Tal atividade política constitui um dever para o filósofo, mas não o seu sentido de vida, pois este é unicamente a contemplação das ideias.

À classe dos guerreiros cabe a defesa interna e externa do estado, de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos, dos quais e juntamente com os quais os guerreiros receberam a educação. Os guerreiros representam a força a serviço do direito, representado pelos filósofos.

À classe dos produtores – agricultores e artesãos – submetida às duas precedentes, cabe a conservação econômica do estado e, consequentemente, também das outras duas classes, inteiramente entregues à conservação moral e física do estado.

Essa estrutura de sociedade nos lembra o caráter tríplice do estado ideal Martinista que é o da Teocracia – e sua analogia com o organismo vivo. A cabeça do estado teocrático é o departamento de Educação e Religião – que corresponde à preservação moral do estado – âmbito do ‘filósofo’ de Platão; o peito é o das leis e do bem estar – que correspondem à preservação física do estado – âmbito do ‘guerreiro’ de Platão; e o abdômen é o da política do corpo – que corresponde à preservação econômica do estado – âmbito do ‘produtor’ de Platão.

Na realidade, esses modelos de sociedade revelam preocupação com três níveis de consciência. Usando outras analogias, podemos nos referir a esses departamentos como: o departamento branco, o vermelho e o preto – em analogia com as três faixas do Martinismo; o departamento dos arquétipos, o da geração e o da formação – em analogia com os três triângulos da árvore da vida; o departamento de alef, de mem e de shin – em analogia com as três letras mães da cabala; departamento do ar, da água e do fogo – em analogia com os elementos e assim por diante.

A ótica pode ser um pouco diferente, mas a verdade que subjaz a elas é a mesma. E o que parece importante nisso tudo foi ver em Platão uma tentativa de trilhar o caminho do meio num processo dinâmico de constante equalização dos extremos e não num equilíbrio estático de quem não olha para os lados. – S.I.